TODA IA AGORA QUER SEU CELULAR, NOTEBOOK, TABLET E SMART WATCH - VAI DEIXAR?
Como a briga das IAs está tomando um rumo impensado, onde Apple e Google parecem ser os prováveis beneficiados
9/22/20264 min read


Vamos combinar uma coisa: toda previsão sobre IA é igual meteorologia no Brasil: a margem de erro é grande. Mas avaliar os caminhos que as coisas tomam é sempre interessante.
Primeiro, vamos falar sobre o problema dos 3 relógios: Capacidade, Lucros e Adoção. Essa teoria tenta explicar como as novas tecnologias se difundem ao longo do tempo e ajuda a entender o potencial de toda nova tecnologia. A teoria é relativamente simples e vou resumir mais:
. O relógio da Capacidade determina se a tecnologia é capaz de se desenvolver com velocidade. Quando os trens chegaram eles eram fascinantes e muita gente investiu (80% da bolsa de Londres na época), mas aí perceberam que, para ter trens era necessário ter ferrovias, e isso custava muito e tomava tempo. Isso aconteceu também com a Internet: para termos a Internet que temos hoje, muita empresa quebrou investindo em infra-estrutura como fibra ótica. Esse é um dos motivos do estouro da bolha em 2000: quem queria lucrar rápido não queria esperar o retorno desse investimento.
. O relógio dos Lucros determina a capacidade da tecnologia de gerar lucros reais para os investidores. Por exemplo: voos supersônicos nos anos 70 eram fantásticos, mas a lucratividade era mínima (voos caros para poucos passageiros). Esse é um dos motivos para o fim do Concorde e dos voos supersônicos. Pelo menos até hoje.
. O relógio da Adoção determina a velocidade e profundidade da adoção dessa tecnologia. O smartphone era a tecnologia de mais rápida adoção até chegarem as redes sociais.
A evolução da IA depende desses 3 relógios e cada um funciona num ritmo. Hoje, estamos enfrenando o problema da Capacidade: as IAs usam mais estrutura do que possuem e começam a degradar a entrega das solicitações.
Aí vem a questão dos lucros. Neste momento, nenhuma IA é lucrativa por conta exatamente da Capacidade. Todas demandam muita infraestrutura, que custa cada vez mais caro. E olha que a infra estrutura, desde o início, já caiu para 1 centésimo do custo inicial e está prestes a cair de novo. Mas, nesta fase, assim como foi no início da Internet, nada parece ser suficiente.
Então vem a adoção. Enquanto muitas áreas já não vivem sem IA, outras ainda lutam para adotar e muita gente fica na dúvida se deve ou não mergulhar nesse mundo. Nada de novo no front.
Quando olhamos para esses 3 pontos, vemos várias incógnitas. A mais resumida é: em qual momento a tecnologia vai evoluir a ponto de fazer convergir os 3 relógios? Porque é nesse momento que a tecnologia já não precisa se provar.
Aí entra o título deste artigo. Esse momento já existe e não é a similaridade, que todo expert gosta de citar. Os 3 relógios parecem convergir para um ponto: plataforma instalada. E qual plataforma é essa?
A OpenAI, dona do ChatGPT, é uma das mais agressivas, mas não tem nada. Depende da NVidia para os processadores e de milhares de data-centers para processamento. O Claude sofre do mesmo problema. A OpenAI tentou um movimento para beber da fonte da Microsoft, mas isso não aconteceu como o esperado. O Claude tenta fazer parcerias.
Nesse cenário, a Microsoft seria uma boa competidora, mas ela está amarrada na OpenAI e precisa decidir se assume de vez o casamento ou separa.
Então, tirando as chinesas, que rodam num universo próprio, só sobrou o Google. E é aí que as coisas ficam interessantes. Porque o Google não apenas possui a plataforma (em vez de citar, é mais fácil citar onde o Google não está) que inclui sistema operacional, smartphone, computadores, navegadores, mapas, servidores, cloud, messaging, Ads, Youtube e smart watches, como também possui parceria com a Apple, que tem a maior e mais fiel plataforma do mercado. A Apple só não tem a IA, que vem do Google, mas tem um consumo de serviços que é 3 vezes maior do que o concorrente mesmo com menos da metade de usuários.
Mas por que isso importa?
. Capacidade - a IA, ao interagir com a plataforma da Apple (ou do Google), passa a ter a capacidade instalada do usuário, ou seja, não depende mais de servidores complexos e caros para processamento. Essa mudança é radical, porque impacta em todo ecossistema da IA.
. Lucros - a Apple vai pagar ao Google, o que o ajuda a subsidiar parte da gratuidade para a sua plataforma, e, ao mesmo tempo, vai receber das outras IAs para permitir o acesso. Mas o que mais ajuda a lucratividade é exatamente a capacidade: em vez de servidores poderosos, a Apple (e em menor escala o Google) não vai depender dos custos proibitivos dos servidores. E por que mais que o Google? Porque o Google é que desenvolve a IA (e isso precisa de servidores) e tem a plataforma de equipamentos mais fraca. A Apple sempre foi especialista na junção de hard e software.
. Adoção - ao integrar a IA aos aplicativos existentes, a adoção passa a ser imediata. Não é necessário esperar uma demanda: está tudo lá. É mais fácil usar do que não usar.
Como tudo muda o tempo todo no mundo, é difícil dizer que essa configuração é definitiva ou sairá vencedora, até porque tem muitos fatores que podem mudar a história, mas a verdade é que temos 2 players do mercado saindo à frente, unidos e carregados de munição. É difícil imaginar que essa combinação não vai funcionar. Eu apostaria que, assim que a tecnologia de IA amadurecer, a Apple vai romper o acordo porque já terá sua IA pronta para uso, com um investimento muito menor.
O fato é que os devices que todos usamos no dia a dia viraram assets para Apple e Google e um problema para as demais. E nós é que estamos no meio dessa disputa.
