2 X ERRO = 1 ACERTO - SERÁ?
Estudos conseguem provar qualquer coisa. Até o improvável.
11/23/20254 min ler


Um estudo da Universidade de Oxford diz ter provado que a Inteligência Artificial não cria pensa e que apenas finge pensar encontrando padrões dentro do conhecimento existente. Em um artigo de dezembro de 2024 (velho, em termos de IA), o pesquisador teria argumentado que a previsão baseada em dados da IA é fundamentalmente diferente da lógica causal humana baseada em teorias. Os principais pontos desta e de outras pesquisas relacionadas incluem:
Retrospectiva vs. Prospectiva: O artigo argumenta que a IA usa uma abordagem probabilística "retrospectiva" e imitativa, enquanto a cognição humana é "prospectiva" e capaz de gerar novidades genuínas por meio de experimentação direcionada.
Raciocínio baseado em teorias: O raciocínio causal humano é concebido como baseado em teorias, fornecendo um mecanismo para intervir no mundo. Em contraste, os modelos computacionais de cognição se concentram mais no processamento de informações e na previsão baseada em dados.
Para provar isso, eles treinaram uma IA com todos os artigos publicados em 1633 e depois questionaram a IA sobre a teoria de Galileu Galilei sobre o Sol e não a Terra ser centro do nosso sistema. Fizeram algo parecido, agora com conhecimentos da virada do século XIX para XX e questionaram sobre a teoria dos irmãos Wright sobre um objeto mais pesado que o ar voar (quando vejo essa frase, penso: ninguém pensou nos pássaros? Um Condor gigante é bem mais pesado do que o ar! Mas enfim...) Em ambos os casos a IA não conseguiu contestar o conhecimento existente e desacreditou tanto Galileu quanto os irmãos voadores e isso teria acontecido porque ela não foi capaz de contestar 99,5% do conhecimento científico existente na época.
Seria então essa a grande diferença para os seres humanos? Definitivamente, não. Primeiro, temos que considerar que IA foi usada, como ela foi treinada, quando ela foi treinada (se o artigo é de dezembro de 2024, isso aconteceu pelo menos 6 meses ou 1 ano antes) e, acima de tudo, uma pergunta que sempre que temos que fazer para qualquer coisa e que só recentemente eu entendi de fato a importância dela: a quem interessa essa ou aquela afirmação ou conclusão?
Se alguém quiser provar que a IA é uma farsa, como esse e muitos estudos já fizeram (inclusive da Apple), é possível provar. Ou, pelo menos, construir um raciocínio lógico que pareça consistente e irrefutável. Mas o motivo disso é porque 99% das pessoas não detém conhecimento suficiente para analisar e destrinchar um estudo desses. Porém, a capacidade de argumentação não é capaz de modificar a realidade: apenas a percepção que se tem dela. Sobretudo se você for partidário dessa argumentação.
Sem ser muito prolixo, vou questionar dois pontos simples desse estudo, porque ele ajuda a entender o tipo de realidade que vivemos no mundo das informações via redes sociais:
O princípio de aprendizado da IA é exatamente o de beber do maior número de fontes possível para entender o que parece ser realidade e o que não parece ser. Se todos a base de conhecimento fornecida for enviesada (como nos dois casos acima), a conclusão será enviesada. Nesse estudo, ao restringir o conhecimento ao que a academia científica da época considerava como ciência, a IA foi induzida a erro. Com certeza, não a alimentaram com conhecimentos dos povos antigos. Aliás, 500 anos antes de Galileu já existiam cálculos que provavam que a terra não era o centro do universo. Só que isso não estava cadastrado como ciência.
Quando você condiciona um ser humano a uma verdade qualquer, por mais absurda que seja, ele também se torna incapaz de questionar. Essa é a razão de crianças odiarem outras crianças só porque a crença é diferente e acontece desde que a Terra é Terra. Então, onde está a diferença para o comportamento da IA? O que algumas pessoas mais iluminadas fazem, de questionar esse padrão existente e propor uma nova realidade, é em geral exceção à regra. Quantos revolucionários temos na história que foram capazes de fazer o que Galileu fez? A esmagadora maioria achou o pensamento dele uma heresia e, hoje, é o que vemos sobre qualquer teoria: os que abraçam com a própria vida e os que rechaçam não interessa as evidências. Por isso tem gente que ainda acha que a terra é plana.
A verdade é que, apesar de sair de Oxford, esse é um estudo que só faz mal ao mundo. É pequeno, limitado, enviesado, raso e só ganha alguma visibilidade porque tem uma chancela de peso. Não é porque sai da boca da realeza que uma mentira se torna verdade. O motivo que me chamou a atenção é exatamente esse: besteira que se propaga porque tem uma chancela supostamente de qualidade. É nisso que se baseiam as redes de comunicação para veicular opiniões disfarçadas de notícia, empresas para obter investimento em projetos fajutos e políticos para serem eleitos. Tudo isso amplificado e globalizado por redes de conteúdo que se fingem de isentas só pode acabar no caos que vivemos.
Por fim mas não menos importante, vamos lembrar de duas coisas:
Definir o que é IA neste momento (nem vou falar de 1 ano atrás) é superficial, leviano, desonesto e tendencioso (para mais e para menos). Estamos construindo um novo tecido de conhecimento que se desdobra de forma exponencial e que não temos ainda condições de prever como será em 1 ano, que dirá em 10.
Usar o experimento dos irmão Wright para falar de aviação já mostra a falta de critério de quem fez o estudo. Apesar da importância dos americanos para o advento da aviação, hoje está mais do que provado que eles "fabricaram" os resultados, que só foram comprovados por Santos Dumont. Isso é importante porque uma pesquisa séria não pode se basear em fatos parciais, sobretudo quando se rende a crenças que escondem interesses ideológicos. Isso só mostra que esse estudo deve ser visto como uma referência do que não fazer. Mais uma vez, a quem interessa essa ou aquela conclusão?
Não se pode tirar conclusões sobre uma coisa que não conhecemos por inteiro ainda. Pelo menos não de suas limitações.
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