A IA não aumenta a produtividade das empresas!
Verdade ou heresia? Fato ou mito?
5/30/20267 min ler


Algumas pesquisas divulgadas nos últimos dias relatam que 90% das empresas (norte-americanas) alegam não ter obtido aumento de produtividade com IA, o que engrossa o caldo de quem diz que a IA é apenas uma bolha ou que ela é só um produto de marketing.
Mais recentemente, o COO da Uber afirmou que não tem mais como justificar os investimentos em IA por ausência de resultados concretos em termos de funcionalidades no serviço. Ao mesmo tempo, a Tesla revela o novo motor desenvolvido e mostra que atingiu um patamar de custos de produção do trem de força de seus veículos que era considerado impossível até recentemente, graças ao uso massivo da IA.
O CEO do Deepmind, computador quântico do Google, afirmou que estamos no sopé da singularidade e que devemos chegar no topo até 2029 ou 2030.
Afinal, quem está certo?
Eu não tenho dúvidas que a IA é um ótimo produto de marketing e de especulação financeira, acima de tudo. Veja o valor das empresas de IA nas bolsas e faça as contas. O que, para mim, é a prova de que temos sim uma bolha e, em determinado momento, isso vai ter que ser ajustado. Ninguém vive eternamente de futuro superestimado.
Mas dizer que a IA não aumentou a produtividade ou agregou features me faz crer que, caso seja verdade, essas empresas não sabem porque estão empregando IA ou invertendo a forma de usar a ferramenta.
Isso me lembra de quando o computador passou a dominar estações de trabalho. No inicio, ele era usado simplesmente como uma máquina de escrever de luxo que tinha um fax embutido. O computador era usado pelas secretárias para redigir textos e memorandos ditados por seus chefes, enviar esses emails, agendar reuniões, realizar compras e encomendas pessoais etc. Em algumas empresas, além dessa prática, era comum imprimir os emails para discussão dos temas em reuniões. Aumento zero de produtividade, porque essas máquinas custavam caro e davam muito mais manutenção do que uma máquina mecânica.
Em termos práticos, essas empresas apenas estavam melhorando o equipamento mas não a forma de fazer o trabalho. Eu vi isso de perto em uma agência: um departamento de criação com 13 pessoas e um só computador, nas mãos da secretária. Embora não fosse caro, o computador era um corpo estranho não incorporado à maior parte do trabalho realizado; então não fazia grande diferença. Nessa mesma agência eu estava lá quando compraram um lindo MacIntosh com scanner e impressora por sublimação de cera, ao custo de U$ 40,0000, que passou a ficar num aquário. Apesar de apenas um dos diretores de arte saber mexer e da espera de até 4 horas para escanear uma imagem ou imprimir um layout, o resultado não era apenas mais realista: já saía pronto para enviar para a revista, ou seja, não precisava passar por um finalizador, pela impressão do texto em papel fotográfico e nem escanear os slides num birô.
Ah, mas então foi o MacIntosh de 40 mil dólares que mudou tudo? Negativo. Um pouco depois, estava eu com um CompaQ qualquer que custava R$ 3 mil, com um scanner HP comum, impressora DeskJet e, além de já produzir layouts que viravam arte-final, ainda podia enviar via email para o birô, eliminando mais uma etapa enorme, que incluía gravar o arquivo em disquete, esperar o motoboy chegar para levar para o birô, torcer para não dar pau no arquivo, esperar o arquivo de volta para então enviar para a gráfica.
Estou dando esse exemplo para mostrar que velhos processos dificilmente se beneficiam de novas tecnologias e o mesmo vale para a IA. Então, a questão não é agregar tecnologia, mas entender que papel ela vai desempenhar. O negócio não é incluir novas ferramentas, muito menos adaptar processos para acomodar essas ferramentas, mas repensar o que é feito e como é feito. Isso lembra a frase do Steve Jobs sobre perguntar aos consumidores o que eles queriam; segundo ele, no final do século XIX, se você perguntasse a ideia da maioria sobre transportes melhores, eles escolheriam cavalos mais rápidos e não carros.
Vou dar um outro exemplo. Quando o celular chegou, ele era apenas um telefone portátil (se bem que nem tanto), que conectava as pessoas e não os lugares. Um avança bom, mas modesto. Depois, ele passou a receber e enviar textos, mas ainda era um pager combinado a um orelhão. Depois, passou a receber emails e começou a substituir o computador em boa parte das vezes. Por fim, veio o iPhone e o resto é história. Ele passou a substituir o computador, a câmera digital fotográfica, o GPS, a secretária, a agenda de papel, o cartão de crédito, a filmadora, o gravador de voz, o cartão pessoal, a lanterna, a trena, o nível, os óculos, o player de música, a TV, o roteador de Internet, o álbum de todos, o rádio, o relógio, o despertador até o telefone, isso só para ficar nas 20 principais utilidades.
O mesmo está acontecendo com a IA e o mesmo tipo de pessoas que dizia que o celular não estava melhorando nada (ou o computador, antes disso), agora fala da IA. Me desculpe o COO da Uber, mas se eles não estão usando a IA para prever onde vai haver mais demanda por carros, no futuro ou nos próximos 10 minutos, se não está usando para entender o tipo de carro e motorista que cada bairro prefere, se não usa para prever onde acontecem mais assaltos ou casos de assédio, conhecer melhor os hábitos e interesses dos usuários do serviço, construir modelos preditivos do comportamento dos motoristas ou prever necessidade de manutenção nos veículos, eles realmente não sabem para que serve a IA.
Isso é o que a Tesla está fazendo. Combinando hardware e software proprietários, ao plugar tudo na IA, a Tesla passou a extrair informação de cada parte do processo, da produção à venda, e da venda ao uso. Ela possui imagens e rotas dos seus carros, históricos de manutenção, quebras e hábitos de uso, temperaturas enfrentadas, problemas encontrados, médias de velocidade. Sabe quando e quanto as pessoas abastecem, onde fazem isso, como fazem isso. Mais ainda, sabem quando e como os concorrentes fazem isso, uma vez que tornaram sua rede de recarga aberta para a concorrência. A Tesla sabe exatamente o que acontece com toda a sua frota no mundo todo, em tempo real, e consegue prever o que fazer em um dia, um mês, um ano. Com isso, trabalha para aperfeiçoar o que vai atender as necessidades dos clientes, antes mesmo de eles saberem o que vão precisar.
A Uber poderia ter a maioria desses dados: perfis de motoristas e de passageiros, perfis de viagem, hábitos de manutenção, previsão de demanda de veículos em eventos, dias e horários, quando chove, quando faz sol. Poderia ajudar seus motoristas a dirigir melhor, a cuidar mais do carro, a evitar quebras, informar sobre trajetos complicados, rotas perigosas. Poderia criar tipos de clientes diferentes, serviços diferentes, tarifas diferentes… Integrada ao Waze ou Google Maps, com IA e incentivo a clientes e motoristas, a Uber deveria saber mais sobre o comportamento do trânsito e veículos do que a CET. Poderia vender esses dados para as prefeituras, montadoras, empresas de plano de previdência, seguradoras… Enfim, poderia ser a especialista em mobilidade urbana. Poderia até criar um modelo de negócios voltado para ônibus e oferecer uma versão de controle específica para taxis.
Vou mais além. A reclamação do COO é sobre o custo dos tokens gerados pelo uso de IA. Isso mostra, na minha opinião, que ela está aplicando a IA da forma errada, inversa ao que deveria. Ela não é uma empresa de IA, embora pudesse ser; ela é uma consumidora desse serviço. Se está gastando demais com tokens é porque está oferecendo intermediando esse serviço na esperança de ter insights ou está deixando sua equipe de TI e operação usar a IA para tentar descobrir o que fazer. O consumo de tokens precisa estar diretamente atrelado a uma remuneração ou a resultados, ou seja, ou você cobra para fornecer a IA (que ainda por cima é de outra empresa) ou o investimento tem que estar lastreado por menos custos e/ou melhores resultados.
Exatamente o que a Tesla está fazendo. Cada dado coletado vira uma melhoria num processo, uma redução de custos ou um avanço tecnológico que vai virar resultado na frente. E olha que a Tesla tem uma empresa irmã que é de IA, ou seja, ela poderia consumir esses tokens para ajudar na receita do grupo, mas não é o que ela faz, pelo menos até onde sabemos. Ela usa para proveito próprio, embora ajudar na receita do grupo seja um benefícios adjacente.
Em resumo, se sua empresa apenas consome tokens de IA para que as pessoas tenham mais tempo livre ou que façam um trabalho igual com menos esforço, ela não está usando IA. Se a IA serve para automatizar processos que não deveriam existir, ela não está usando IA. Se usa a IA só para não contratar alguns tipos de serviços ou para pagar menos, você está usando apenas a embalagem da IA.
A IA muda completamente a forma como você faz seu trabalho, como a empresa opera e como ela melhora o desenvolvimento de produtos e serviços com menos tempo e menos erros. Ela precisa fazer parte do core da empresa para produzir os resultados verdadeiros. E sua empresa não precisa ser uma Tesla para medir o custo de cada centímetro caminhado. Usar a inteligência para reduzir prazos, custos e recursos é inteligência humana e uma necessidade. Ela só se torna artificial porque usamos recursos digitais para que isso seja atingido. Se você espera que a IA reinvente seu negócio, esqueça. Você precisa reinventar e usar a IA para fazer o serviço pesado.
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