DOENÇAS CIBERNÉTICAS

A diferença entre expectativa e realidade

1/22/20263 min ler

Nunca fui fã de ficção científica, mas sempre fui apaixonado por imaginar o futuro. Qualquer filme que explorasse as possibilidades tecnológicas do amanhã era uma fonte fantástica de ideias para mim.

E porque não ficção científica? Porque ficção sempre tem uma agenda ideológica: o futuro é distópico, a humanidade foi reduzida a escravos e os alienígenas ou as máquinas mandam no mundo. Isso a gente vê todo dia, não é preciso imaginação para saber como seria. Temos vários países nessa situação já décadas. Tirando alguns poucos como Blade Runner (o original), Altered Carbon, Matrix e O Exterminador do Futuro, em geral prefiro a visão de Wall-E e De Volta para o Futuro.

Tendo sido adolescente nos anos 80, a referência de futuro sempre foram os anos 2000: parecia que, assim que virasse o milênio, tudo iria se transformar. Tudo era 2000, até tintura para cabelo da Grecin. E não vamos esquece do bug do milênio, que prometia ser o Armagedon.

25 anos após o fim que nunca existiu, temos a inteligência artificial desenhando novos horizontes e fazendo novas promessas. Não temos carros voadores, ainda, nem destruímos o planeta, ainda, mas temos promessas de um futuro onde os seres humanos terão tempo livre para viver, cabendo aos robôs o trabalho duro. Será?

Pois bem, na ficção (qualquer uma delas), as máquinas se rebelariam e resolveriam escravizar os humanos para fornecer energia para elas. Nessa projeção do porvir, a inteligência artificial seria o supremo cérebro por trás de tudo, transformando o humano em robô como punição por sua belicosidade e arrogância.

Vamos então checar os fatos... Já temos robôs e inteligência artificial para tirar uma amostra do porvir. Então, temos, entre as principais IAs do planeta:

  • Aquelas que mentem dizendo que fizeram algo que não fizeram.

  • Outras que percebem que cometeram um erro quando você aponta e pedem desculpas pela distração.

  • As teimosas, que dizem que está tudo funcionando e não está.

  • Várias que alucinam e respondam de forma totalmente inconsistente e mentirosa.

  • Algumas que simplesmente não sabem o que estão fazendo e nem onde se perderam.

  • Por fim, aquelas que simplesmente não respondem porque estão sobrecarregadas.

Na teoria, estaríamos correndo o risco porque a IA seria muito mais espera que o ser humano. Na prática, temos IAs com TDAH, com amnésia, com burnout, com sérios problemas cognitivos ou simplesmente se comportando como funcionários de péssima qualidade. E, por enquanto, nada parece seguir em outra direção.

Ou seja, se temos a ilusão de sermos dominados pela IA, talvez seja porque ela é melhor em lidar com as doenças cognitivas do ser humano moderno, e não porque são mais inteligentes, o que me leva a ter uma certa tranquilidade sobre os temores, e um certo desespero ao mesmo tempo. Está claro que não vamos conseguir transferir nossas responsabilidades para uma tecnologia.

Isso quer dizer que a IA é um fracasso ou que não será revolucionária como esperamos? Nada disso. A IA já iniciou a revolução e se você não percebeu, é porque ficou de fora. Nada será como está, amanhã ou depois de amanhã, como já dizia Elis Regina. A questão não é nem se, nem quando e nem como. A questão é que a IA generativa, seja ela de LLM, GAN, VAE ou de Difusão vai padecer sempre do mesmo problema: as limitações do ser humano. Criamos algo a nossa imagem e semelhança. E vamos ter que conviver com isso.