EU APOSTARIA NESSAS OCUPAÇÕES PARA O FUTURO

Prever o futuro é bem mais difícil do que inventá-lo.

9/14/20265 min ler

Desde pequeno eu sonho com o futuro. Seja por ansiedade, paixão por tecnologia que corre nas minhas veias, minha cabeça sempre viveu alguns anos à frente da realidade. Já imaginei muita coisa que, posteriormente, aconteceu de maneira mais ou menos parecida.

Quando aprendi sobre as possibilidades do laser, imaginei um mundo onde o laser faria tudo: captaria o som dos discos de vinyl (evitando o contato desgastante das agulhas), leria a trilha magnética das fitas cassette (também para evitar o atrito) e faria tratamentos dentários, o led iluminaria tudo, os carros seriam feitos de dentro para fora, com rodas muito grandes e super aerodinâmicos, teriam sistemas de suspensão que não desgastassem, dispositivos permitiriam entender e falar qualquer idioma, teríamos robôs para tudo e poderíamos nos teletransportar para qualquer lugar.

Acho que meu índice de acerto tem sido bem bom, mas não sei se melhor do que a ficção científica como um todo, que tem menos de 50% de previsões certas, segundo alguns pesquisadores. Mas o que isso interessa?

A maior dificuldade de prever o futuro é imaginar comportamentos disruptivos ou a evolução do que temos. Por exemplo: carros voadores. Está no imaginário e nas previsões de milhares de autores. Mas por que ainda não temos isso de fato? Porque criar carros voadores é muito mais complexo do que se imagina. Não basta ter motores eficientes e que consumam pouca energia (ou energia compacta abundante), mas também automação dos sistemas que ainda estamos começando a usar.

Outro exemplo: em 95% dos filmes de futuro distópico (que representam 95% dos filmes de ficção), as pessoas não usam celular ou usam celulares comuns. Nem o celular é onipresente como é hoje, nem as telas flexíveis e expansíveis existem. Coisas muito mais avançadas são projetadas, como transporte da “alma” para outros corpos por meio de dispositivos de bolso, mas nada do celular como é hoje.

Daí vem a pergunta, que aliás é o dificultador para estimar acerto das previsões: em que momento da evolução estamos? Como disse em artigo anterior, a evolução de tecnologia é exponencial. Fica tudo muito igual até que tudo está diferente. Será que o futuro não será feito de celulares que fazem tudo em prol de dispositivos implantadas ou vestíveis? As iniciativas até agora não foram bem sucedidas, mas como disse, podemos estar no início de aceleração da curva de adoção. Então, tanto os filmes podem ter errado como previsto um tempo ainda mais avançado, onde o celular perdeu a importância.

Por conta da dificuldade de prever novas tecnologias e transformações, muito autor e muito guru de negócios prefere inventar o futuro. É mais fácil afirmar uma coisa polêmica e disruptiva do que tentar propor um caminho de evolução mais planejável. Disrupção vende melhor e ninguém vai lembrar de apontar o dedo para o autor das alucinações.

Mas e os empregos, qual a relação com tudo isso? 90% das “previsões” sobre profissões e ocupações do futuro baseiam-se em novas carreiras e o fim das atuais. Como também dito em artigo anterior, Allex Karp da Palantir previu que só vão sobrar trabalhadores braças e neuro-divergentes, numa ótima tentativa de salvar a própria pele.

Eu tenho uma previsão bem menos bombástica e mais racional. É fato que a IA é ou vai se tornar melhor do que o ser humano em quase qualquer tarefa produtiva. Do conserto de encanamento à construção de foguetes, a IA faz melhor, mais rápido, mais consistente e mais previsível do que um ser humano. Quase qualquer execução é ou vai se tornar melhor com IA. De tarefas muito complexas a muito delicadas. Então, o ser humano já era?

Não, mas a porta vai ficar estreita. O maior poder do ser humano, que IA nenhuma consegue produzir, é a transformação. O ser humano transforma tudo o que põe a mão. Nem toda transformação é positiva, mas é um poder que talvez precise de uma IA para ser regulado. Transformar é produzir o novo, de uma forma que nenhuma IA tem capacidade de fazer. Essas pessoas continuarão a ser imprescindíveis porque elas é que fazem as coisas avançarem. A IA é capaz de produzir muito bem o que já foi transformado. Mas não transformar.

É essa a diferença entre as pessoas que pensam e entendem os negócios onde atuam e as que não entendem. Transformar exige pensar além, reinventar, fazer melhor, inovar. Depois disso feito, a IA consegue elevar à última potência, mas não adianta aperfeiçoar o que não tem futuro. Nas empresas, isso significa ficar com as pessoas que são capazes de inovar e as que são capazes de implementar. E isso não tem relação com a profissão.

Num escritório de advocacia, você não precisa de um advogado para pesquisar processos e nem escrever um Contrato. Mas você precisa de um advogado para pensar numa alegação que não é óbvia ou que vai afetar um júri.

Num escritório de engenharia, você não precisa de um engenheiro para fazer cálculos ou projetar estruturas, mas você precisa de alguém que encontre uma forma diferente de realizar uma obra.

Numa clínica, você não precisa de um médico para dar um diagnóstico baseado em exames, mas precisa dele para perceber contradições nos sintomas.

Numa empresa grande, você não precisa de gerentes ou de funcionários para executar as tarefas, mas para decidir quais tarefas devem ser feitas e qual a prioridade com base nas necessidades de negócio.

Em todos esses casos, a IA vai achar novas soluções, mas só quando for usada a força bruta, ou seja, quando grandes grupos de pesquisa ou desenvolvimento tentam achar uma nova solução. Aí, uma vez encontrada, as IAs do mundo todo aprendem. Mas esse breakthru não vai acontecer numa empresa pequena, usando uma IA de aluguel. Até pode acontecer, mas então a ideia vai sair da cabeça de um executivo brilhante que pensou o que mais ninguém pensaria.

No final das contas é simples: se você usa seu cérebro de fato no trabalho, para fazer melhor ou diferente o que tem que ser feito, você sempre terá lugar. Da mesma forma que se você for alguém que faz as coisas acontecerem. Agora, se você apenas executa deixando o cérebro em casa, a IA já está ocupando o seu cargo e, em breve, você vai poder deixar o resto do corpo também.

A IA não é um novo funcionário e nem uma nova ferramenta. A IA é uma plataforma, onde você constrói uma nova forma de produzir em qualquer área. Reduzir a IA a uma ferramenta é tão limitado quanto, hoje, pensar na Internet como um canal.

No fundo, o homem muda, mas só sobrevive o que transforma. É o poder de transformar que nos torna homo sapiens sapiens e não nossa execução. Transformar não é apenas mudar, mas re-significar o que se transforma. Seja qual for o produto ou serviço, otimizado ou não, sempre vai precisar de alguém que vai olhar para aquilo e dizer: podemos fazer diferente, podemos criar outra coisa ou podemos mudar tudo.

Agora, se a IA avançar a ponto de conseguir fazer isso melhor do que o ser humano, aí sim devemos correr para as montanhas.

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