JÁ ESTAMOS NO DAY-AFTER

Lembra do filme-catástrofe dos anos 80 que simulava o que aconteceria no dia seguinte de um holocausto nuclear? Pois bem, a explosão atômica das IAs já aconteceu e já estamos no dia seguinte. Só falta perceber.

8/21/20264 min ler

Sem alarmismo mas sem tratar o assunto de forma superficial, a explosão do uso de IA é fato presente e inevitável. Quem ainda luta para perceber isso precisa de terapia. Não se trata de se e nem quando, mas quanto isso afeta nossas vidas. E não pense que isso vai mudar se estourar uma bolha. Como já disse anteriormente, a bolha gera uma série de impactos mas não impede a transformação.

E tem mais uma coisa: como gosto de dizer, a vida não faz pesquisa de opinião. Não existe um DataDestino que pergunta para você se você está confortável ou não com as mudanças e nem o que você acha. Isso é problema de cada um. Por isso, não interessa se a Uber não conseguiu extrair mais potencial da IA ou se 80% das empresas ainda não viu benefício, a IA já está entre nós, entranhada, permeando quase todas as camadas.

Do mapeamento das estrutura das proteínas, que avançou em 2 anos mais do que em 300, ao desenvolvimento de novos materiais, a IA já faz parte dos alicerces das atividades e tecnologias. E não estamos falando de perguntas para o ChatGPT, embora isso seja a porta de entrada: estamos falando de mudanças profundas e incomparáveis, provavelmente. Daí a analogia com o Day After.

Um bom exemplo: o CEO da Palantir, aquele que todo dia despenteia milimetricamente sua cabeleira para parecer cientista louco, disse que só vão sobrar 2 tipos de mão de obra: os Hands On, que executam trabalhos braçais nas funções de Encanador, Eletricista e Artesãos, ou os Neurodivergentes, que rompem as barreiras do pensamento corrente.

Do primeiro caso, tenho algumas dúvidas: cada vez é mais fácil criar máquinas com inteligência que fazem os trabalhos manuais, de consertos elétricos à produção de sapatos. Pode ser que o ser humano não queria pagar para esses serviços para uma máquina, mas se o Encanador tiver seu próprio robô, por que não? Vamos lembrar que na China as manutenções em postes de alta tensão já são feitos com robôs, o que me parece bem lógico. De qualquer forma, isso me lembra do quadro clássico do Flying Circus do Monty Python, O Consertador de Bicicletas, que se passa numa cidade onde todos os homens são super homens e o verdadeiro herói é o mecânico de bicicletas, pois só ele sabe fazer isso.

Do segundo tipo, já não tenho dúvidas: quanto mais o conhecimento chega a mais cantos ao mesmo tempo, situação típica da disseminação de IA, menos ele vale e mais novo conhecimento precisa ser produzido, e isso precisa de cérebro humano que não segue os padrões. Lembrando Gurdjieff, o guru russo, conhecimento é finito no tempo e espaço. Então, se muita gente tiver acesso à mesma informação, isso deixa de ser conhecimento. Um conceito estranho mas que faz todo sentido.

É fácil ver os empregos que vão sumir: todos aqueles que não agregam nada de novo, ou seja, que trabalha para garantir seu emprego. Como assim? Qualquer empresa de médio e grande porte tem dezenas de pessoas que estão lá apenas para garantir seus empregos, em funções que existem sem questionamento. Para quem já foi fornecedor, são aquelas pessoas que atrapalham a aprovação dos projetos pedindo alguma mudança desnecessária (“troque fazer por implementar”) ou que insistem em criar dificuldades para valorizar seu trabalho (“vamos ficar todos na mesma página, por favor”).

Essas comportas de fluxo de trabalho funcionam como a maioria dos semáforos: não servem para organizar cruzamentos e sim para atrasar o fluxo. Nenhuma empresa que busca eficiência pode ser dar ao luxo de ter pessoas assim, mas até hoje elas eram a única opção. Hoje, você substitui por IA, desde que você saiba identificar essas situações e usar a tecnologia.

Se o Alex Karp estiver certo, muito gente vai sobreviver por meio de trabalhos braçais, desde que tenha a mínima vocação. Só não sei se a remuneração vai justificar. O problema é o outro perfil, dos neurodivergentes. Você não se torna neurodivergente por vontade própria e nem existe curso para isso. Claro que ajuda ler muito, beber de várias fontes, buscar expandir os limites da mente, mas não é só isso. A ruptura intelectual é uma coisa bem mais elaborada.

Como tudo é suposição, vamos aos fatos: quem não usa IA em pelo menos metade das suas atividades está ficando defasado progressivamente a cada dia. E não é uma coisa de saber ou não usar, mas do hábito. Eu mesmo, entusiasta que sou do assunto, me pego às vezes fazendo uma coisa que poderia ser feita por IA. Tirando textos, que não abro mão, quase tudo cabe IA em algum ponto.

Aí você sente o impacto de quanta coisa você pode fazer no seu dia-a-dia com IA. É uma lista que só aumenta. Cada uma daquelas funções que você delega para a IA antes havia alguém para fazer. Se você não mergulhar a fundo, não vai entender o poder de transformação. Tem gente que acha que é só para fazer perguntas ou resolver dúvidas. Pior: para dar um tapa no que está fazendo, como algo provisório.

A IA vai mudar nossa relação com as tarefas e não é apenas na questão de quem faz a tarefa, mas de como é feita. Porque o tempo de execução é brutalmente menor. Você só precisa saber especificar e criar aprendizado para gerar conhecimento acumulado. O conhecimento que podemos criar e acumular com a IA não tem relação nenhuma com o nosso conhecimento humano. Padrões, cálculos, lógica e repetição de tarefas da IA são muito superiores aos do ser humano. Só não podemos delegar as decisões finais. Esse fardo tem que continuar nas nossas costas.

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