O DILEMA DE HENRY FORD
Eu só quero que a IA diga onde está o dólar perdido
7/20/20265 min ler


O celebrado criador da produção em massa, Henry Ford, foi autor de frases que se tornaram lendárias com o passar dos anos. A frase dele que eu mais gosto é a seguinte: “de cada dois dólares que invisto em propaganda, um eu jogo fora; só não sei qual.”
Ele estava se referindo a um problema histórico do marketing, que é dificuldade de mensuração do retorno em marca. Quando você faz uma campanha e vende na sequência, você sabe dizer se investiu bem. Porém, quando você investe em branding, essa conta não é imediata; na melhor das hipóteses, ela é diferida, ou seja, parte do resultado é imediato e parte, ao longo do tempo, se vier. E é essa parte que você não sabe dizer se valeu a pena ou não o investimento.
Quando surgiu o marketing digital, eu fui um dos primeiros a dizer que o dilema de Heny Ford estava chegando ao fim, uma vez que a mensuração digital seria precisa, completa e abrangente a ponto de sabermos o retorno exato de cada centavo investido. Ledo engano.
Não que esse avanço na mensuração não seja verdade. Ele é fato. Mas é também um fato aparente. Se você investe em marca, é só fazer uma pesquisa de recall antes e depois do investimento. Se a percepção melhora ou aprofunda depois da campanha, sucesso. Caso contrário, fracasso.
Mas isso era lá em 1990. De lá parca cá a comunicação transformou meia dúzia de canais em centenas de milhares. O impacto que a TV inegavelmente gerava na percepção foi sendo diluído, as mensagens começaram a ter cada vez mais ruído e a realidade do consumidor começou a falar mais alto. Para uma marca alardear que tem qualidade e consumidores satisfeitos ela não pode ter uma lista de consumidores reclamando nas redes sociais e no Reclame Aqui. Não dá mais para prometer, não cumprir e ainda sair impune.
Mas o desafio não para aí. Progressivamente temos nos acostumados com números mais precisos e mais detalhados sobre o que acontece nas vendas e no branding. Uma pesquisa de recall, hoje, não vai mostrar de forma tão objetiva o resultado de uma campanha até porque para a maioria das empresas não tem verba para investir numa campanha com tal impacto. Somos obrigados e ver os resultados de forma incremental.
Hoje, ter uma visão completa do cliente é um processo complexo e às vezes complicado. Evoluímos muito, mas não o suficiente. O processo deveria ser reto e claro: anuncio, acompanho o interessado, vejo se ele virou lead, prospect ou cliente. Depois, acompanho a jornada dele para ver o comportamento como cliente e descobrir o melhor momento para vender um novo produto ou serviço, certo?
Mas não é bem assim. O Google, com ferramentas gratuitas, fez mais por essa mensuração do que todas as empresas de software juntas. Mesmo assim, para você integrar suas campanhas de Google e Meta Ads, seu WhatsApp, telefonia, sistemas legados, site, Analytics é necessário passar por uma via crucis de conectores, acessos, falsas IAs, senhas, códigos, dupla autenticação, planilhas, webhooks etc.
Ou seja, o que deveria ser fácil e rápido vira um emaranhado de processos e sistemas que torna tudo mais complicado e, pior, tende a gerar dados com atraso. O que não falta é promessa de dados precisos, em tempo real. Mas o processo para se obter isso é complicado.
Aí deveria entrar a IA, mas parece que o mercado ainda não entendeu isso. Vou comparar 2 ferramentas que usam a IA e você vai entender o dilema.
. Temso.ai - é uma das mais fascinantes ferramentas dos últimos tempos. Desde que comecei a usar, quase 4 meses atrás, ela só tem evoluído, mas é brilhante desde a primeira versão. Por que? Porque ela mostra claramente o que acontece com sua marca nas IAs, mostra quem fala e quem não fala dela, qual o volume de citações que sua marca tem em cada uma, as citações, cria prompts, mostra a situação da concorrência, mostra onde você está aparecendo, onde não está aparecendo, o que precisa ser feito, o que já está bom. Tudo com rapidez, clareza, objetividade e assertividade. A cada novo update a ferramenta só melhora. E usa a IA do jeito que deve: para entender e propor o que deve ser feito, para ganhar velocidade e simplicidade. A IA faz o seu trabalho com maestria.
. OneClick.ai - a promessa é tentadora: integrar seu funil de vendas com IA e conseguir o melhor desempenho das campanhas. Porém, na prática a teoria é outra. Integração nativa só com alguns e-commerces, processos, via TagManager, processo de configuração da ferramenta complexo e demorado, resultados duvidosos (como a integração com WhatsApp, que não diz a que veio), relatórios simples e pouco interessantes. Otimização das campanhas: processo muito engessado, apenas focado em alertas baseados em valores (atingiu o valor ela pausa ou reinicia a campanha). O que eu esperava? Integrar todo o meu funil da forma mais simples possível, integrar campanhas usando os IDs e um processo de otimização com IA que me mostrasse o que eu teria que fazer para melhorar o resultado. A IA não precisa tomar decisão por mim; apenas dar respostas objetivas e fazer a coisa de maneira simples. Nada disso acontece. Uma coisa essencial que não existe na ferramenta, já que ela se diz tão tecnológica, era melhorar o resultado das campanhas com base no desempenho de aquisição, mas ela parece nem saber o que é isso. No final das contas, a IA é apenas a garota propaganda, porque o que está sendo feito poderia ser igualmente executado com algoritmos.
Ambas as ferramentas custam quase o mesmo preço, ambas são voltadas para Growth, ambas usam a IA como diferencial e promessa e ambas são criações recentes, só que uma entrega algo melhor do que vc espera e a outra, mais do mesmo.
Isso lembra nos anos 90, quando a onda do turbo chegou à mídia de massa. Então, tudo tinha uma versão turbo: secador, liquidificador, mixer, equipamento de som e até computador. Hoje, o turbo virou IA e tudo promete ter Inteligência Artificial, mas acaba pecando na falta de inteligência humana. De que me adianta uma IA que não sabe o que eu quero ou que não consegue me dizer o que está errado? De que adianta uma IA que não atua na compreensão do negócio e simplesmente liga ou desliga um anúncio quando atinge um determinado valor? Isso não é IA, é parâmetro.
Comparei 2 ferramentas, mas tem mais um monte que comete os mesmos erros do OneClick e muito poucas que fazem o que a Temso faz. Ou seja, o dilema de Henry Ford agora começa na hora de investir na ferramenta.
O mercado para soluções com IA é gigantesco, mas claramente falta visão da necessidade de quem toca o negócio. Isso se assemelha com o início dos anos 2000, quando o CRM surgiu com a mesma promessa do ERP, de automatizar processos. A questão é que processos de ERP eram baseados em etapas físicas e legais, que se repetiam, enquanto o CRM era baseado em políticas comerciais, que mudavam de empresa para empresa. Bancos, que adoram gastar dinheiro com novidades, queimaram verbas incríveis para acabar com soluções que só resolviam o problema de quem as vendeu.
Gente, vamos colocar a IA onde deve: na entrega, não na promessa.
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