ORÇAMENTO NOTA ZERO
Onde acaba o corte e começa a morte?
3/25/20263 min ler


Quando aprendi sobre o conceito de Orçamento Base Zero eu tive sentimentos contraditórios. De um lado, uma ideai bastante ousada. De outro, um misto de utopia e dúvida: como é possível pensar em todas as despesas como questionáveis?
Claro, Orçamento Base Zero é mais um conceito do que um guia de implantação. Toda empresa, em qualquer virada do ano, tem seus compromissos já assumidos. Então, a ideia é questionar o que realmente é necessário e o que está sendo feito por inércia. Nesses tempos de Lean Companies, é uma ideia totalmente válida.
Porém, temos que preceder esse conceito de um outro bem mais etéreo, mas que gera resultados sustentáveis: posicionamento. Na minha opinião, posicionamento é a espinha dorsal de qualquer empresa e a diferença entre o sucesso das empresas está exatamente na qualidade dessa espinha dorsal. Por analogia, toda empresa séria deixa de ser invertebrada para se adotar a espinha dorsal que sustenta todas as suas atividades.
Ainda mantendo a analogia, tudo o que a empresa faz que está em sintonia com sua espinha dorsal representa vantagem prática, real. Tudo o que conflitar com o funcionamento da espinha é peso morto. Gordura é peso morto, rigidez muscular é empecilho, decisões lentas, também. Pense na espinha dorsal de um gato e sua capacidade de sobrevivência. Espinha jamais tem relação com rigidez.
Por que a analogia? Porque o posicionamento precisa de coerência, consistência, ações coordenadas, agilidade, tudo o que tem relação com a espinha dorsal. Não adianta uma empresa ter ideias geniais que não podem ser implementadas por falta de coordenação, rigidez operacional, incapacidade de implantação. Ou ter ideias desconexas, descoordenadas, que não se somam.
Mas o que isso tem relação com Orçamento Base Zero? Não é possível aplicar o conceito sem entender o que é posicionamento da empresa. Quando qualquer corte de custos ou investimentos ignora as necessidades de negócio que sustentam a empresa de pé, o negócio vai pro brejo. Literalmente.
A espinha dorsal você não vê, mas quando ela está em sintonia com o que a empresa é, você vê na comunicação e reconhece o que ela faz. O contrário é verdade também: empresas que tentam mostrar uma cara que não corresponde ao que ela é capaz de fazer não impressionam por muito tempo.
Cortar custos e cortar ou redirecionar investimentos não são atividades financeiras: são atividades estratégicas que precisam estar alinhadas com o que a empresa é ou pode ser. Nos últimos anos, convencionou-se afirmar que toda empresa moderna é, no fundo, uma empresa de tecnologia.
Por esse raciocínio, vence a que tiver o melhor software, certo? Errado. Toda empresa moderna depende de uma estrutura tecnológica de ponta. As montadoras de veículos estão vendo isso. O Grupo VW tem experimentado na pele o que é ter um conglomerado gigantesco sem uma estrutura de tecnologia em linha com o que o mercado deseja.
E um ótimo exemplo é o que está fazendo a Ferrari com seu novo modelo 100% elétrico Luce. Convidar Johny Ive para criar o interior do modelo parece um dos maiores contra-sensos, já que estamos falando do criador do iPhone para projetar a interface de um carro. No projeto dele fica claro o que as montadoras entenderam de errado ao tentar trazer para os carros a interface de um smartphone. Telas não são a solução para todos os problemas. Interfaces hápticas não resolvem dirigibilidade. Telas de alta resolução não se sobrepõem a softwares ruins.
Quem não viu deve procurar os documentários sobre o lançamento da Ferrari Luce. Fica fácil entender que a tecnologia, em muitos casos, precisa ser transparente e o usuário tem que lidar com aquilo que ele conhece melhor, que é o mundo físico. Num segmento como o da Ferrari, interação ser humano/máquina é crucial. Telas são frias e monótonas. Feedback artificial não satisfazem. O que se espera de um veículo, sobretudo uma Ferrari, é muito diferente do que se espera de um celular. Ao ver o resultado final, você não se surpreende com as formas (retângulos com cantos arredondados), mas com o que está por trás das formas: a maneira como mundo físico e analógico interagem para criar experiências reais.
Esse é apenas um exemplo de quando uma empresa entende o que ela entrega e isso tem total relacionamento com posicionamento. A Ferrari construiu um segmento onde ela é única e ela sabe que nesse mercado, ela tem uma entrega que permeia todo o seu processo criativos e produtivo. Daí o desafio dobrado de fazer um carro elétrico ou, como eles mesmo falam, não se trata de um carro elétrico, mas de uma Ferrari elétrica.
Em resumo, se você quer tornar sua empresa mais eficiente, cortar custos pode até ser a solução, desde que você saiba onde e o que cortar. Caso contrário, o que você vai perder de receita não vai compensar o que vai ser economizado.
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