PRECISAMOS FALAR DA FIFA
Um modelo de gestão que se perdeu no tempo
6/11/20263 min ler


A Federação Internacional de Futebol Associação, ou FIFA como conhecemos, é talvez uma das organizações não governamentais com maior poder no mundo há décadas. Eu mesmo, durante minha adolescência, achava que ela pertencia a algum governo.
Não há como negar que a FiFA construiu uma reputação inigualável nos seus 122 anos de vida, sendo responsável por um evento, Copa do Mundo, que não é apenas o evento esportivo de maior audiência global como também é a referência para todos os eventos de grande porte há anos.
Essa reputação no entanto, não impediu a FIFA de estar envolvida em polêmicas que, hoje, parecem cada vez mais descabidas. Tudo começou com escândalos de corrupção que levaram a entidade a mudar todo o seu comando, embora na prática ninguém tenha sido punido de verdade. Em 2014 vimos as exigências faraônicas para a construção de estádios que deixaram dívidas ainda hoje não pagas no país. Agora, temos o festival de absurdos que já ofuscam a abertura do evento em 2026.
Veja, não estamos falando de um evento qualquer ou nacional, estamos falando da maior audiência esportiva do planeta, com investimentos de bilhões por um número cada vez maior de empresas num esporte que, apesar ou por conta de suas polêmicas, só cresce. Não à toa, chegamos a 48 seleções e 39 dias de um evento que começou com apenas 13 em 1930.
A Copa de 2026 começou com o lançamento de uma música tema feita por IA de forma absolutamente displicente e amadora, o que levou a FIFA a encomendar a toque de caixa uma meia dúzia de novas canções para apagar a vergonha. Mas não parou aí.
O que explica um juiz ser barrado e enviado de volta para seu país com passaporte diplomático, uma seleção não poder dormir em solo americano entre um jogo e outro, um outro país ser revistado com cães farejadores, entre vários outros fatos? Desorganização, falta de comunicação, despreparo ou conivência?
Todos sabemos que os EUA estão numa caça às bruxas contras os imigrantes. Isso mesmo: todos sabemos e isso não começou ontem: vem desde a posse de Trump. Então, o que foi feito para que isso não atrapalhasse a realização da Copa? Nada. É a crônica de uma morte anunciada. O comediante Maurício Meirelles inclusive previu que torcedores brasileiros e latino americanos iriam assistir os jogos com camisas de times europeus para fugir da patrulha do ICE. Se ele estiver certo, a Copa é o momento perfeito para identificar e entregar os imigrantes de bandeja para as autoridades. Será?
Você pode alegar, com o Infantino alegou, que as leis dos países são soberanas e que a FIFA não pode simplesmente passar por cima disso. Concordo, mas esse problema de barrar membros de delegações é apenas a ponta do iceberg.
O fato é que, para mim, é inegável que a FIFA não apenas sabia disso como não está nem aí. Está claro que o interesse da entidade é poder e dinheiro e acha que é possível, em pleno 2026, continuar a gerir seus negócios de forma incompatível com os valores do esporte que ela diz defender. Não existe FairPlay no vocabulário da FIFA.
Não fosse a paixão surreal que o mundo tem por futebol, o modelo de gestão da FIFA já teria sucumbido. Tantos escândalos e absurdos teriam jogado a reputação da entidade na lata do lixo. Mas não é o que estamos vendo. Graças ao futebol e seu gasto brutal com marketing, a FIFA consegue escapar da responsabilização e da imagem de gestora incompetente. Até quando?
Eu particularmente vejo o futebol como uma arte em franco declínio, onde a ganância e interesse comercial ocupam cada vez mais o espaço da esportividade e do imponderável. Não que seja culpa da FIFA, mas seu modelo de priorizar a receita a todo custo é perfeito para um esporte comandado por entidades e times sem nenhum profissionalismo. O que vale agora é polêmica e espaço na mídia, cada vez mais dominada pelas redes sociais. O esporte é quase um problema e cada vez menos o objetivo.
Uma empresa comum sobreviveria a tanto escândalo? Teria seus produtos comprados depois de tudo? O Grupo Volkswagen pode dizer isso: da liderança à crise após o chamado Dieselgate.
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