SERÁ QUE A IA ESTÁ PRONTA PARA NÓS?
Todo mundo pergunta se estamos preparados para a IA, mas acho que o problema é inverso
6/22/20263 min ler


Eu uso muito a IA e já me deparei com alguns limites preocupantes das ferramentas. Mas não uso tanto quanto a minha filha mais velha, que é especialista hoje em vídeos feitos inteiros com IA. Trabalhando para uma agência internacional, ela entrega diariamente pelo menos 3 ou 4 vídeos de 1 a 3 minutos gerados integralmente pela IA a partir de imagens construídas pela IA.
A agência que ela trabalha não é muito grande, mas é muito eficiente. Apesar de ter em torno de 10 editores que nem sempre usam IA (ao contrário da minha filha), a agência tem contas corporativas no Kling, no ChatGPT, no Gemini etc. Essas contas são as contas mais completas em todas as ferramentas. Mesmo assim, todos os dias, minha filha esbarra nos seguintes problemas:
. Demora excessiva no geração dos vídeos pelo Kling. Esse problema se alterna com vídeos gerados com erros grotescos.
. Limite de imagens no ChatGPT - nem o plano mais caro é capaz de entrega o número de imagens que eles solicitam diariamente. Todos os dias a ferramenta ou demora demais para gerar as imagens ou informa que o limite diário foi atingido.
. Demora e erros no Gemini - embora o Gemini não tenha um limite de imagens, frequentemente a ferramenta demora absurdamente para gerar as imagens solicitadas ou relata algum problema e pede para tentar mais tarde.
. Todas - erros infantis, problemas inexplicáveis, inconsistência etc. Tudo isso é normal em TI, mas no caso da IA, a maioria das ferramentas não oferece suporte, mesmo no caso de contas corporativas. Ou seja, o gasto é PJ mas o suporte é PF.
Na Pandemia, na empresa sofremos com o Vimeo, que fez uma coisa que poderia ser facilmente caracterizado como sequestro com resgate: de uma hora para outra, como todas as empresas estavam usando video e o consumo aumentou, o Vimeo resolveu mudar drasticamente a forma de cobrança, baseada num obscuro artigo da Política de Uso, que dava poderes à ferramenta de mudar a forma de cobrança quando o cliente atingia um volume de transferência equivalente a 1% dos clientes que mais consumiam. Ou seja, um dado obscuro, um cálculo impossível e uma decisão que não poderia ser questionada. Com isso, o valor mensal passou não apenas a ser limitado como aumentou 30 vezes. Melhor do que isso: apesar de ser uma conta corporativa, a comunicação foi por email e, assim que atingiu o prazo definido por eles, simplesmente cortaram o streaming de vídeos.
No último artigo falei que área de retenção ou success é um erro, que demonstra a incapacidade da empresa de fazer relacionamento com o cliente. No caso de IA, é um misto dessa miopia das empresas de TI com arrogância sobre as soluções oferecidas. Acreditam que estão sozinhas e que cabe ao cliente aceitar suas imposições.
O problema desse raciocínio é que ele é ilusório. São poucos os segmentos onde não exista concorrência, ainda que imperfeita. Na maioria dos casos, a falta de opções é temporária e as empresas acabam amargando taxas de churn crescentes.
Essa arrogância das empresas, de achar que clientes não são essenciais, vem desde a chamada Nova Economia, no final dos anos 1990. Na primeira onda de Internet, as empresas buscavam o dinheiro dos investidores e clientes eram números que serviam apenas para aumentar o valuation.
Isso me faz crer que, em termos de IA, estamos num momento parecido. Quando o valor de mercado de uma empresa considera a receita de vendas um mero detalhe, existe uma bolha. A questão não é se a ela vai estourar, mas como vai fazer isso. Porque a correção é obrigatória, mas pode eventualmente ser feita de forma escalonada. No estouro da bolha de 2.000, o comportamento foi de terra arrasada e todo mundo sofreu. Depois disso, as correções foram segmentadas ou “parceladas”.
Para mim, como usuário e executivo, as bolhas e os estouros são elementos cruciais e inerentes a um mercado que vive da tecnologia de ponta e especulação. A questão é como ela vai afetar as empresas, lembrando sempre que as mudanças acabam gerando riscos e oportunidades. Por isso, nunca aposto contra e nem a favor das bolhas: busco o caminho que tenha mais longevidade e sustentabillidade.
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