TI'S HARD LIFE

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

3/19/20263 min ler

O advento da IA para as empresas tem um impacto inegável, sobretudo para as áreas de negócio e tecnologia.

Até a Pandemia, estimava-se uma defasagem de 240.000 profissionais de TI só no Brasil nos anos seguintes. Pós-pandemia, com o enxugamento e crise de muitos setores, o que levou a demissões em massa, esse número parecia estar equacionado.

Aí veio 2024 e o ChatGPT descortinou uma nova realidade. Do mundo sem programadores, pensado no início, para a realidade atual, muita coisa mudou. O que não mudou? O descompasso entre as estruturas.

Explico melhor. Antes da IA, a maioria das empresas sofria com um problema crônico: departamentos de tecnologia que não conseguiam entregar soluções no timing e formato desejados pelas áreas de negócio. Esse problema, que já abordei num texto anterior, tinha 3 fontes:

  • Falta de profissionais de TI qualificados, como dissemos acima.

  • Alto custo dos profissionais, sobretudo devido à escassez, que fazia a mão de obra ser racionada pelas empresas.

  • Total falta de sintonia entre TI e Negócios, que criava uma tensão constante entre as áreas. Negócios quer time to market e TI quer soluções à prova de bala.

Não coloco nessa equação a super valorização de profissionais de TI ruins, porque isso é um substrato que temos não apenas nesse segmento. No Brasil faltam bons profissionais em quase todas as áreas.

As coisas começaram a mudar nas empresas antes da IA, com as ferramentas low-code e no-code, que permitiam a profissionais de diversas áreas com um pouco de dedicação e boa vontade construir algumas soluções simples e úteis.

O maior problema da falta de sintonia entre TI e Negócios já começou a escancarar e, na minha opinião. só vai piorar nos próximos anos. O motivo? Enquanto alguém fazia uma ferramenta para gerir emails usando um Bubble ou Flutter Flow, TI continuava a navegar nas águas turbulentas dos sistemas legados, com bases de dados e códigos complexos, acreditando estar em um mundo separado.

Com a IA, mais especificamente com os agentes de IA completos, que integram interface, aplicação, banco de dados e servidor, o negócio mudou muito. De repente, as soluções de negócio não são mais periféricas e restritas: elas começam a interagir com todo o ecossistema das empresas.

Não adianta você ter um sistema legado robusto, com bases de dados complexas e uma equipe enorme de TI se nada disso conversa com essas soluções que vão se multiplicar. Durante anos as empresas buscaram construir sistemas legados seguros, complexos, estanques, fechados com bases de dados protegidas e isoladas. Nada disso vai sobreviver nos próximos anos e a culpa não é da IA, mas da arquitetura: esses sistemas são versões desktop de mainframes do passado. Por conta de softwares falhos em termos de segurança como o Windows Server, as empresas construíram exoesqueletos feitos de aplicações restritivas e limitantes. Como aprendemos em biologia, para poder crescer, animais com exoesqueleto precisam abandonar a casca e ficar vulneráveis até solidificar uma nova armadura. É isso o que vai acontecer com empresas, se não morrerem antes.

Eu estou propondo algo mais prático e inteligente: abandonar essas armaduras por APIs e componentes de integração que permitam ao ecossistema de tecnologia das empresas transbordar para todas as áreas de negócio, as que existem e as que ainda serão criadas, integrando com soluções rápidas, práticas, dedicadas a necessidades de negócio que surgem ao longo do tempo.

Cabe a TI construir tanto essa interoperabilidade que já existe em gigantes como o Google quanto as políticas e barreiras que vão impedir que dados sejam roubados, vírus sejam implantados e servidores hackeados. As áreas de TI têm que implementar esses ambientes de troca para permitir, por exemplo, que a área de técnica de uma Seguradora seja capaz de construir um BI só de risco da carteira de automóveis sem que nenhum dado proprietário ou sigiloso seja acessado ou roubado. Permitir que marketing envie mensagens de WhatsApp integradas com notificações via App para 32 segmentos de clientes para cadastrar num novo serviço sem que nenhum dado sensível seja violado.

Para isso, os programadores hard-code terão que se submeter às LLMs ou conviver com programadores nativos dessa nova realidade. Vejo desenvolvedores novos ainda resistindo a introduzir a IA no seu dia a dia, como se abrissem uma porta para a entrada de um inimigo. A IA já está dentro das empresas em todos os níveis, da imagem que comunicação pede para o Chat GPT a apresentações feitas para um cliente pela área comercial.

Atrasar esse processo vai decretar a morte de muito negócio. Ferramentas são ferramentas e a IA é um super ultra ferramenta que vai reinventar muita coisa. Diz o ditado que é melhor manter os amigos perto e os inimigos mais perto ainda.

TI precisa parar de olhar para código e prompts e passar a olhar para fora de seus castelos de servidores e cabos e olhar para aquele que, por anos, foi o vilão de todos os sistemas já desenvolvidos: o usuário.