UM DIA TODOS SEREMOS UBER

Como a IA vai mudar as relações de trabalho e remuneração geral.

7/31/20264 min ler

Você já pensou em ser Uber? Pois não interessa se você gosta ou não gosta, concorda ou não com o modelo, mas saiba que uma das funções da IA é tornar a relação entre contratante e contratado muito próxima do que existe no Uber. E não se trata exatamente do vínculo profissional, mas principalmente da remuneração.

Vamos entender o que isso significa… Para maximizar sua lucratividade, a Uber criou um algoritmo que busca cobrar o máximo do cliente e pagar o mínimo para o motorista. Para isso, ele desvinculou uma coisa da outra, ou seja, você pagar mais por uma corrida não implica em pagar mais para o motorista. Muito pelo contrário: para o modelo, o ideal é receber o máximo e pagar o mínimo.

Obviamente, fazer isso sem IA é muito complexo e a maioria das empresas acabaria perdendo mais tempo gerindo o sistema do que seria viável. Porém, com a IA isso não apenas é possível como desejável, pelo menos do ponto de vista das empresas. Isso não existe apenas no Uber, vamos ser claros. Isso existe há muito mais tempo nas companhias aéreas, onde você paga mais por assentos em falta, especialmente em cima da hora. Basicamente, é um sistema de leilão reverso, onde você recebe o valor e decide se quer pagar, sendo que esse valor tende a ficar mais caro à medida que se aproxima o momento do uso.

A Uber apenas acrescentou duas camadas a mais: desvinculou o valor pago pelo cliente da remuneração dos motoristas e acrescentou aquele coeficiente que mudava durante a corrida, uma das coisas mais mal faladas dos últimos tempos. Detalhe: ela também não inventou isso: numa corrida de taxi, conforme o trânsito piora, você paga mais e mais. Portanto, ter um valor variável não é nada absurdo mas foi muito mal visto e tirado das vistas do cliente.

A questão da IA, ao viabilizar esses micro-cálculos sensíveis ao tempo, como no caso da Uber, cria a possibilidade de um modelo de contratação de serviços que facilmente cai no limite do que é ético. Primeiro, porque ela não se limita a analisar as condições imediatas (no caso da Uber, disponibilidade de motoristas, local e características da corrida e disposição de cada lado de aceitar) mas também as conjunturais: sua propensão ou necessidade de aceitar pagar mais ou receber menos com base em dados financeiros e histórico comportamental.

Vou elaborar… Você vai se candidatar a uma caga de emprego. Sua ficha está boa: não tem nome sujo, tem um bom histórico profissional etc. Porém, está com uma conta altíssima do cartão de crédito (a empresa comprou uma base de dados de clientes dos principais cartões), você acabou de comprar um carro novo, seus filhos mudaram de escola e você acabou de voltar de viagem. Ou seja, talvez aquela oportunidade de emprego nem seja tão boa, mas absolutamente salvadora, o que permite à empresa oferecer um salário mais baixo do que estava pensando. Ou colocar uma meta mais alta para o variável. Talvez, propor um contrato de prazo mais curto. Em resumo, mudar a negociação com base nas suas necessidades e não necessariamente na competência, valor ou qualificação.

E isso pode ir além… Você pode entrar no Supermercado e os preços mudarem para você especificamente, aliás, como já acontece online. Mas podem mudar de acordo com dados menos públicos, por assim dizer. Você está tomando WeGovy e tem menos propensão a comprar doces. Assim, o preço pode baixar. Ou aumentar porque você é diabética e está em crise hipoglicêmica. Como o supermercado pode saber disso? Da mesma forma que suas redes sociais: pelo seu celular e pelos dados que você compartilha desavisadamente. Pelos seus dados bancários (todo mês compra a caneta ou insulina).

A verdade é que as possibilidades são infinitas. Seu valor por hora pode varia de hora para hora, de acordo com a maior ou menor necessidade de demanda do seu serviço. Do ponto de vista de lucratividade, nada demais. Do ponto de vista pessoal, apenas demais. A verdade é que a IA vai permitir definir exatamente quem produz ou não produz numa estrutura e deve acabar com as grandes estruturas pessoais. Hoje, na grande maioria das empresas, existem funcionários cujo único trabalho é justificar sua função. Eles funcionam como cotovelos, controles, barreiras e desvios. São exatamente como ferramentas de trânsito como faróis, placas de desvio, lombadas, valetas etc. Eles não melhoram a qualidade do trânsito, a condução e nem a vida de quem trafega: apenas criam barreiras e tentam controlar o fluxo de veículos, de forma a diminuir gargalos.

Não existe motivo, numa operação otimizada com IA, de manter esse tipo de função. Ela será melhor despenhada por uma IA e isso vai afetar as pessoas de muitas formas diferentes. Algumas vão perder empregos, outras vão ter promoção, mas a maioria vai encontrar espaços menores. Acreditar que todo mundo vai ser super-produtivo com IA é o mesmo que achar que o iPhone do ano vai revolucionar suas fotos ou sua produtividade. Ferramentas, como a IA, funcionam melhor nas mãos de quem sabe usá-las. A diferença, no caso da inteligência, é que ela mesmo pode definir quem sabe ou não utilizá-la.

Quando ouvir que a IA não vai acabar com os empregos e que todos vão ter mais tempo livre, pense no seguinte: ou é mentira, ou todo mundo no futuro vai ser Uber/Coach. Provavelmente, os dois.

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