UMA COPA ELETRIZANTE

Somos ou não somos uma aldeia global?

7/1/20264 min ler

Meu amigo Ricardo Bueno compartilhou um texto sobre o impacto da Copa na infraestrutura elétrica que me inspirou a escrever este artigo.

A principal característica da sociedade atual, com públicos divididos e dispersos entre milhões de aplicativos, sites e meios, é a audiência assíncrona. Cada pessoa assiste a um conteúdo num momento, num lugar, num dispositivo e, ainda que seja o mesmo conteúdo, isso acontece em momentos diferentes.

Para quem é muito jovem, eu explico… Até o advento da Internet, isso era regra: quando acontecia um evento como a Copa do Mundo, todo mundo era obrigado a assistir ao mesmo tempo, no mundo todo. A final da Copa de 1970 no México, primeira a ser transmitida via satélite, teve uma audiência estimada de 800 milhões de telespectadores no mundo todo. Em 1985, o Live Aid, chegou a reunir 2 bilhões de pessoas em mais de 100 países.

Hoje, com a facilidade e se assistir aos eventos em qualquer dispositivo, cada vez mais os eventos tendem a ser assistidos no timing individual das pessoas. Mas não a Copa do Mundo e não no Brasil.

Durante o jogo Brasil X Japão, o maior desafio não era vencer a retranca japonesa, mas manter o Brasil inteiro operando a 60 Hz. Por que?

Assim que a partida começou a carga da rede elétrica começou a cair simplesmente porque milhões de brasileiros estavam fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo: assistindo ao jogo, seja na TV, seja nos diversos dispositivos móveis ou não. Apenas uma minoria estava usando chuveiros, máquinas de lavar, microondas etc. A concentração foi tanta, que o consumo caiu 21% em relação ao que seria esperado naquele momento.

No intervalo, a sincronia das pessoas foi igual. Ao levantarem para preparar um café, assar alguma coisa ou ir ao banheiro, elas geraram um aumento de quase 5% em 9 minutos.

Ao final do jogo, assim que o árbitro apitou fim de jogo, esse aumento foi de 20% na hora seguinte, o equivalente à capacidade da Usina de Itaipú, ainda uma das maiores do mundo.

Enquanto os brasileiros ficavam de olho no placar do jogo, as operadoras acompanhavam a estabilidade do sistema, colocada a duríssima prova.

Essa analogia mostra alguns aprendizados:

. Poucos eventos atualmente têm o poder de mobilizar e equalizar o comportamento de tanta gente ao mesmo tempo. Ainda que o brasileiro seja o mais fanático do mundo em termos de futebol, vale lembrar que estamos no mundo todo, repetindo esse comportamento de forma global.

. O poder da Copa como mobilizador mundial dá uma ideia do poder da FIFA, que abordei em outro artigo, seja na geração de receitas, seja no engajamento. A FIFA é, hoje, o que a Igreja Católica já foi: uma entidade sem fins lucrativos de atuação mundial que rivaliza em poder com os governos para fornecer alívio e consolo às pessoas. A maior diferença está na atuação menos política da FIFA.

. O interesse mundial pela Copa, parte pela inclusão cada vez maior de países participantes, só cresce e torna o esporte um fenômeno único, movimentando toda uma indústria.

. A mobilização gerada pela Copa em termos de consumo, turismo, engajamento, participação, audiência etc mostra que existem alguns eventos que ainda se sobrepõem a todas as mudanças de hábitos atuais e são capazes de reunir pessoas diferentes num mesmo momento e lugar.

. A propaganda tradicional faz total sentido num evento como esse, por conta do seu impacto, mas faz cada vez menos sentido em eventos assíncronos. Ao mesmo tempo, a propaganda interativa das redes sociais faz cada vez mais sentido em qualquer tipo de comunicação, sobretudo quando usada de forma inteligente.

. Contexto e pertencimento são conceitos que vieram para ficar. Por isso, na Copa, uma ação da Coca-Cola ou mesmo de uma Bet qualquer (por mais aversão que isso gere) faz todo sentido e gera resultados imediatos, enquanto um Banco Itaú é cada vez mais ruído. Patrocinar a seleção, para um banco, sem contexto ou pertencimento legítimos, é a tentativa de obter máximo awareness com mínimo CPM, agregando nada ou muito pouco a uma imagem que é cada vez menos valiosa para as pessoas. É muito investimento para pouco resultado. Num outro artigo vou falar mais disso.

Uma lição que fica, particularmente para mim, é a questão da importância e impacto da eletricidade no mundo. Se hoje já não vivemos sem ela, cada vez mais vamos depender dela para sobreviver. O problema é que neste exato momento ela já é o gargalo em IA, em data centers, em carros elétricos… Criamos um mundo que evolui mais rápido que a infra-estrutura. O colapso do sistema não é mais uma hipótese, mas uma premissa que precisa de muito pouco para se concretizar.

Se a água é um recurso precioso e crítico em alguns lugares, a energia está se tornando ainda mais crítico e escassa, com uma diferença crucial: dois terços do planeta são água. Portanto, é mais fácil, por mais caro que seja, transformar água salgada em doce do que extrair a energia necessária do sol ou de qualquer outra fonte natural.

O filme que melhor retrata essa situação é Matrix, onde as máquinas passam a simular a realidade para que os serem humanos aceitem servir de fonte de energia para elas. Hoje, já alimentamos voluntariamente as redes sociais em troca de entretenimento. Está faltando pouco para doarmos nossos corpos.

Talvez a Copa de 2034 deixe de ser física e passe a ser virtual. Ou será que isso já acontece e somos meros avatares nesse mundo digital? Desde a pandemia não tenho certeza de mais nada.

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