UMA LUCE NO FIM DO TÚNEL

Como uma parceria inusitada pode criar um sucesso ou grande fracasso

5/26/20263 min ler

Imagine que você investiu bilhões no projeto de um novo carro. Contratou o designer mais badalado do mundo para criar sua mais nova máquina, que permite avançar num segmento onde a empresa era apenas mais uma. Depois de meses de antecipação, você lança sua nova aposta e o mercado vaia sua iniciativa.

Qualquer empresa entraria em pânico, como fez, por exemplo, a Jaguar, quando resolveu apresentar sua inovadora linha de veículos disruptivos. Mas a Ferrari, protagonista do acontecido acima, não fez isso.

Dentro da estratégia da empresa estava a aposta num novo segmento. Por mais que convencer alguém a gastar mais de meio milhão de dólares num veículo elétrico continue a ser um desafio gigantesco, a marca apostou que a maior parte do seu público não quer uma Ferrari 100% elétrica e que o veículo tinha que atingir novos mercados. Afinal, é cada vez maior o número de pessoas entre 30 e 50 anos bem sucedidas, que trazem um novo olhar para a questão eletrificação e que querem algo que não existia ainda. Esse público, que coleciona relógios com caríssimas complicações (sistema de movimentos da máquina de um relógio mecânico), quer usar carros menos agressivos ao meio ambiente (pelo menos na teoria e no barulho), não se identificam com a identidade nem a atitude de um dono de Ferrari, mas querem ser donos de um bem único, restrito, inédito, cult.

É muito cedo para dizer se a aposta da Ferrari vai dar certo. Eu acho que vai, mas o mais admirável não foi apenas a coragem (sem a estupidez de abandonar o consumidor que paga as contas, como fez sua rival britânica), mas a preocupação em oferecer um veículo que foi pensado de dentro para fora, a partir da experiência de uso do motorista e não do desejo de ser piloto.

Quem assistiu ao documentário da apresentação da solução do Johny Ivy do interior da nova Luce viu que cada botão, cada mostrador, cada componente, foi pensado tendo a experiência táctil, visual, auditiva e sensorial em mente. Cada botão tem um peso, um design e uma textura específicas, mostradores usam interação entre digital e analógico e tudo foi pensado do ponto de vista do motorista. Vendo a identidade criada, não era difícil imaginar que o exterior tivesse a mesma lógica. Mais uma vez, formas simples, limpas, sem adornos, sem rebuscados, sem microesculturas para passar o vento. Um carro que combina potência imediata, desempenho, dirigibilidade e praticidade num nível que não pertence aos veículos modernos.

Para quem associa Ferrari a formas esguias, esculpidas pelo vento, visual extravagante e o legítimo ronco de um V12, a Luce é uma decepção. Mas para quem sonhava com uma Ferrari que não existia, silenciosa e inusitada, esse talvez seja o carro.

A aposta é alta, mas se estiver correta vai abrir um novo mercado para uma marca que não quer perder o protagonismo conquistado ao longo de 90 anos de inovação. Se estiver errada, quem mais vai sofrer será o designer que nos deu o iPhone: a Ferrari já lançou veículos que não deram muito certo antes. Mas o que mas me faz acreditar na aposta é uma curiosidade: nos anos 60, a Ferrari queria lançar um modelo com motor V6 (uma heresia para Ferraristas) e motor central, uma combinação inédita para a marca. Isso, num momento que começava a existir uma concorrência direta com a Lamborghini. A aposta era tão incerta, que o fundado, Enzo, resolveu que ela não seria vendida com a marca Ferrari, mesmo tendo sido feita em homenagem a seu filho morto, Dino (de Alfredo, Alfredino). E que seria distribuída pela Fiat, já dona da marca, para não queimar a imagem, com uma submarca Dino.

Não só a Ferrari Dino, como ficou conhecida, foi um sucesso, como acabou ditando moda e influenciando muito das iniciativas nos anos seguintes, embora o motor V6 não tenha tido continuidade. Ou seja, a marca, até quando parece errar, acerta.

Façam suas apostas.

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