VALE UMA ESTRANHEZA SIM!

Algumas coisas não vamos mais desver...

3/13/20264 min ler

Você já ouviu a expressão uncanny valley? Quem me apresentou a expressão foi Guilherme Rangel, brilhante Diretor de Criação, hoje brilhante Futurista.

Segundo o autor do conceito, Mashiro Mori, ele é um conceito psicológico e estético que descreve a sensação de repulsa ou desconforto que humanos sentem ao ver robôs, animações ou avatares que parecem quase humanos, mas têm pequenas falhas realistas.

Esse conceito, com a IA, vai muito além da percepção visual e se estende na questão física e também auditiva.

Todos sabemos que a IA está nos seus primórdios, mas também sabemos que a evolução é tão rápida que anos são condensados em meses e meses em dias. Pensando nisso, resolvi separar algumas respostas que recebi da IA e avaliar a qualidade das afirmações contidas nelas.

A pergunta que eu quero fazer é: temos ainda um vale da estranheza em textos (no caso, letras de músicas) feitas por IA ou já estamos vendo novos letristas feitos de silício?

Coisas que aprendi fazendo música digital:

  • A IA tenta falar de crença em Deus, mas sempre procura fazer isso da terceira pessoa: me disseram, dizem por aí, acreditam…

  • Fala de amor sem pudor, do básico à luxúria.

  • Parece entender que os momentos decisivos na vida são resgatam dúvidas existenciais.

  • Emula sentimentos de forma semelhante ao ser humano.

  • Criar imagens inusitadas e não óbvias.

Alguns exemplos:

  • Ao criar meu primeiro álbum com IA, queria um título forte que traduzisse o que estava fazendo. Sem ouvir meu pedido, uma das letras criadas dizia: we are analogue hearts stuck in a digital world (somos corações analógicos presos num mundo digital). Pronto! Era a ideia que precisava.

  • The night is watching through electric eyes - a noite nos observa por meio de olhos elétricos.

    Poético e sinistro de certa forma.

  • If silence had a shape, it’d look a lot like this: two people in the same room, afraid to reminisce - Se o silêncio tivesse forma, seria muito parecido com isso: duas pessoas no mesmo ambiente com medo de relembrar.

    Poético, ousado e original: forma para o silêncio?

  • I’m breaking away tonight from the weight I couldn’t see. Every tear taught me the truth, I was holding back my wings. I don’t know where I’ll land, but I know where I’ve been - Esta noite me liberto do peso que eu não via. Cada lágrima me ensinou a verdade, que eu estava escondendo minhas asas. Eu não sei onde vou aterrissar, mas sei onde já estive.

    Poético, ousado, libertador.

  • I’m feather and flame, I don’t fall, I rise. I love like a storm with my open eyes. If you want me, understand - Sou pluma e fogo, eu não caio, eu subo. Amo como uma tempestade, mas de olhos abertos. Se você me quer, me entenda.

    Poético, imaginativo.

  • I don’t need a miracle, just a moment where we try to erase the lines we never crossed, before we say goodbye - Eu não preciso de um milagre, apenas apagar as linhas que nunca cruzamos antes de dizer adeus.

    Poético, trágico, dilema ético.

  • I wear my secrets like perfume: you smell them before I call. You say my name like it’s a spell, like I don’t already know. I’ve been dancing with myself since long before your shadow showed. I’ve loved like fire, I’ve loved like stone, I’ve loved until it hurt, but I won’t trade my crown of bones for a life that fits your words - Eu uso meus segredos como perfume: você sente antes de eu chamar. Você me chama como se fosse um feitiço, como se eu não o conhecesse já. Eu tenho dançado comigo mesma muito tempo antes da sua sombra aparecer. Eu tenho amado como fogo, como pedra e até mesmo doer, mas não vou trocar minha coleção de ossos por uma vida que cabe nas suas palavras.

    Poético, ousado, disruptivo., sofrido.

  • So pour the tea, ignore the score, let moss reclaim the ancient stone. The heart remembers something more than anything that’s ever owned - Então, coloque o chá, ignore o placar, deixe o limo reclamar as pedras antigas. O coração sempre se lembra de algo maior do que o que pode ser comprado.

    Poético e imaginativo.

  • I don’t need perfection, just a real connection. If you’re ready, cross the line, no disguise tonight - Eu não preciso de perfeição, apenas conexão real. Se você está pronta, atravesse a linha, sem disfarce esta noite.

    Poderia estar num perfil do Tinder se as pessoas soubessem escrever bem.

  • I played the blues too loud, too fast, like the future owed me back the past. But time don’t bend, it just rolls on, teaching right from wrong - Eu toquei meu blues muito alto, muito rápido, como se o futuro me devesse de volta o passado. Mas o tempo não se curva, apenas segue em frente, ensinando a separar o certo do errado.

    Melhor que muita letra por aí…

  • When the clock slows down and the room gets still, you can’t hide behind what might’ve been or what never will - Quando o relógio se arrasta e a sala fica imóvel, você não consegue se esconder atrás do que poderia ser ou do que nunca será.

    Meio confuso, mas ousado falar de tempo por alguém que só conhece a medida. Ou será que isso é assim com todos nós?

Sem querer esgotar o assunto, a verdade é que o uncanny valley entre o que é real e o que é sintético está reduzindo de forma logarítmica, o que significa que cada vez é menor mas que talvez nunca acabe de verdade.

Ainda bem, porque a realidade não deve jamais ser colocada em segundo plano.